Mínimo denominador comum, simplicidade

É instigante pensar a respeito do significado da palavra simplicidade. A sensação que eu tenho é que a maior parte das pessoas passa por momentos difíceis ao tentar definir, entender ou aplicá-la em sua vida, trabalho ou produção artística. Ao mesmo tempo vejo que, para outras pessoas, simplicidade é sinônimo de simplismo.

Nestes momentos em que paro para pensar a respeito desta palavrinha e da força que ela tem sobre nossa existência, percebo que é bobagem reinventar a roda. E recorro àquela escola do pensamento que mais estudou e vivenciou esta palavra: o Zen budismo.

Ponho-me a lembrar que o Zen enfatiza a tranquilidade gerada dentro da simplicidade. Lembro-me dos exemplos que comparam o estado que nossa mente deveria estar quando criamos (ou fotografamos): Igual a um céu de brigadeiro. E lembro que os mestres Zen enfatizam que devemos estar sempre abertos para o que está à nossa volta. Em um estado de eterno deslumbramento, mesmo (e talvez principalmente) com aquilo que estamos familiarizados.

A fotografia para mim é quase como uma declaração Zen. Pois não é exatamente esta uma das missões do fotógrafo, em cada clique ver o mundo como algo completamente novo, mesmo quando apontamos a câmera para o rotineiro e familiar?

Nos últimos tempos passei a levar em conta que, além da difícil tarefa de buscar o simples (e como isto é complexo!), também existe o extenuante desafio de buscar o mínimo denominador comum em todas as coisas. Ora, alguém poderia dizer que isto é o mesmo que nivelar por baixo. Eu afirmo que não: Procurar o mínimo denominador é a essência e o objeto maior da busca pela simplicidade.

Significa que podemos abrir mão do excesso se soubermos usar com equilíbrio, parcimômia e humildade aquilo que está à nossa volta neste instante.

Significa que não precisamos esperar o contexto mundial, a conjunção dos astros e o resultado do Campeonato Paulista de Futebol estarem a nosso favor para tomarmos decisões sobre como queremos expressar nossa visão de mundo.

E por último, significa que podemos democratizar nossa visão e conhecimento através de processos simples, porém efetivos.

Um exemplo: Imprimir uma foto em papel barato, do tipo papel-jornal, e ver as falhas, a textura rústica e as imperfeições surgindo à nossa frente, pode ser um excleente exercício, além de poder vir a ter grande apelo visual. Não imprimimos no papel mais barato por economia, mas sim por buscar chegar à alma dos processos. Afinal, se a arte só pode se manifestar através de materiais caros e raros, algo está se perdendo.

O que eu disse acima não significa que estamos "barateando" ou desvalorizando nossa produção, pois conseguir bons resultados com matérias-primas mais "toscas" é muito mais dificil. Experimente você mesmo...

Para os japoneses este processo é tão essencial que tem um nome: wabi. Que significa algo como "a beleza se manifestando através do despretencioso, simples, inacabado e transitório". Nossa língua, assim como o inglês, não possui um vocábulo similar. Segundo Alain de Botton, esta inexistência diz muitíssimo a respeito de nossa filosofia (ou a ausência desta) e valores estéticos. A conexão entre a beleza e valores de toda espécie é um fato que jamais deveríamos esquecer quando olhamos através do visor da câmera.

Para aqueles que desejam mergulhar no tema, dois bons começos: 

John Loori, The Zen of Creativity: Cultivating your artistic Life

Alain de Botton, The Architecture of Happiness

É simples, basta começar.

 

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