Paraty, para mim e para quase todos

Gilden, rápido no gatilho

Evandro, a beleza no caos

Gibson, o performático

Participei este ano, pela primeira vez, do Paraty em Foco. Tive a oportunidade de acompanhar de perto o esforço dos organizadores e as dificuldades encontradas para se realizar um Festival neste país, qualquer que seja o tema.

Alguns dias antes do evento percebi que não havia, ao menos que fosse do meu conhecimento, nenhuma entrevista com perguntas mais diretas para a pessoa que viabilizou o evento este ano. Portanto, antes de pegar a estrada, fiz algumas perguntas ao Luiz Marinho, manager da Marinho Comercial e responsável pela organização geral. Suas respostas foram curtas e direto ao ponto, talvez pelo fato de que ele já estivesse em Paraty, envolvido na resolução dos mil e um problemas que inevitavelmente surgem em um evento desta magnitude:

Eu: Como você faz para conciliar seus interesses comerciais, o amor à arte, o ego dos fotógrafos e a vaidade dos curadores em um só espaço geográfico?
Ele:  Muito trabalho, um pouco de paciência e algumas caipirinhas.

Eu: Você acha que eventos isolados como o PEF são capazes de mexer com a inércia do nosso mercado fotográfico?
Ele: Sim, são nestes eventos que as pessoas se encontram e as novas idéias e parcerias surgem nas rodas de conversa (com cerveja).

Eu: Quais são os maiores desafios para se fazer um festival de foto no Brasil, fora do circuito das metrópoles?
Ele: Caixas, muitas caixas, logística e uma boa equipe são fundamentais para que o evento aconteça. Costumo dizer que o festival não é de quem comanda e sim das pessoas que o fazem.

Eu: Vamos ao que interessa: O Festival dá retorno em quais níveis (financeiro, artístico, corporativo, institucional)? Quais as suas expectativas?
Ele: O festival, além de dar muita alegria para quem gosta de fotografia, como eu, ainda pode ser um ótimo negócio a médio prazo. Minha expectativa é que com o tempo as empresas do meio percebam a importância do marketing cultural no mundo hoje.

Fazia mais de 10 anos que não ia a Paraty. Esta cidade é um retrato típico do Brasil: O centro histórico é uma pérola da humanidade (habitada por personalidades como Roberto Irineu Marinho, Dom Joãozinho, Naji Nahas(!) e outros), mas os arredores são de assustar, o horror de qualquer arquiteto ou ambientalista. Alguns fatos que chamam atenção (mas que na verdade já viraram padrão neste país, não sei porque ainda me espanto ao presenciá-los): As pessoas carregam bebês em motocicletas sem capacete  e sem nenhuma outra proteção (aliás, era muito raro ver um motociclista de capacete); as casas são inacabadas e mal projetadas, e tal fato não aparenta ser devido à falta de recursos, mas sim à preguiça, desleixo e falta de vontade; a população invade ou destrói a vegetação impunemente.

Os responsáveis pela cidade, aparentemente, somente se preocupam com o centro histórico.

A primeira impressão do Festival foi bastante favorável. Percebe-se que houve planejamento e logística na organização (embora as palavras "Brasil" e "planejamento" sejam muitas vezes como água e azeite). Mas o sucesso tem seu preço: O número de pessoas que afluíram ao evento deve ter sido bem maior do que o esperado, pois era difícil conseguir lugares disponíveis no auditório.

Acho que o Amir Klink definiu bem, em sua palestra na quinta-feira (que apesar de não estar ligada diretamente à fotografia foi uma das mais interessantes, pelos insights que trouxe), o que ocorre nos eventos em geral no Brasil: Pecamos nos pequenos detalhes. E quando o sucesso chega, os detalhes pesam.

A maioria dos eventos do Festival foi bastante interessante, mas alguns foram memoráveis:

  • Evandro Teixeira, o baiano arretado com aquele seu jeitinho brasileiro (no bom sentido), deu o exemplo ao mundo inteiro daquilo que um fotojornalista pode ser capaz.
  • Ralph Gibson deu um show, literalmente, com sua magnífica e corajosa performance e as imagens da noite que permaneceram em meu inconsciente.
  • Bruce Gilden mostrou sua competência e coragem, e também como é importante manter o "foco" de nosso trabalho.

Tenho certeza que os organizadores aprenderão muito com o sucesso que tiveram e com os detalhes que pesaram negativamente. Torço por eles e me coloco à disposição no que for necessário, mas gostaria de deixar 2 sugestões (na verdade fiz uma lista delas, mas creio que deva entregá-las diretamente aos organizadores) que com certeza devem refletir o pensamento daqueles que compareceram ao evento:

  • O formato de perguntas e respostas com entrevistador após a palestra ou apresentação do fotógrafo já está desgastado e deveria ser repensado. Ralph Gibson foi esperto o suficiente para se safar deste mico, mas imagino que possa haver modos melhores de se fazer isto. Eu mesmo imaginei um outro modelo, bem mais dinâmico.
  • Os pioneiros gostam, com toda a justiça, de serem homenageados. O idealizador do Parati em Foco, Giancarlo Mecarelli, talvez mereça algum tipo de destaque por parte dos organizadores (ou um prêmio com seu nome, ou talvez até uma placa comemorativa), para que ele não tenha que fazê-lo por conta própria, como vi acontecer algumas vezes durante o evento.

De resto, vamos torcer para que o Paraty em Foco tenha vida longa e que o sucesso (e seus respectivos percalços) o deixe cada vez resistente e eficiente.

p.s. - Uma coisa que me cansou um pouco foi a discussão infrutífera, em alguns cantos do festival, do analógico (que eu prefiro chamar de fotografia à base de prata) versus digital. Embora os organizadores tenham sido neutros, alguns participantes insistem em perder tempo com esta questão,  a qual se torna cada vez mais irrelevante. Ninguém fica discutindo a marca do pincel de Pablo Picasso ou o solvente usado por Gauguin. Está na hora de ir além, prestar atenção nas pessoas que já passaram por isto e que estão enxergando os próximos 10 anos que vem por aí.

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